Compreender como o uso das redes sociais pode impactar a saúde mental dos adolescentes, identificar sinais de ansiedade e depressão entre estudantes e incentivar hábitos mais equilibrados no ambiente digital. Estes são os objetivos de “Prevalência de transtorno de ansiedade e depressão em jovens escolares de Campos dos Goytacazes: uma análise da relação com o uso das redes sociais”, projeto que integra o Mais Ciência, programa de incentivo à iniciação científica da Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia (Seduct). Coordenada por Amélia Miranda Gomes Rodrigues, a iniciativa busca investigar a relação entre o tempo de exposição às plataformas digitais e o bem estar emocional dos jovens, além de estimular reflexões sobre a vida fora das telas.
Segundo Amélia, na execução, o projeto foi nomeado como Bora Viver, proposta que surgiu para aproximar o tema do universo dos adolescentes e reforçar a importância de cultivar experiências presenciais, convivência e momentos de lazer longe do celular. A coordenadora explica que a iniciativa não se limita à observação dos dados, mas aposta no diálogo com os estudantes para promover consciência sobre saúde mental e comportamento digital. “Com este projeto, queremos promover a conscientização sobre a relevância do uso consciente das ferramentas digitais e despertar nos adolescentes a vontade de viver, também, fora das telas, promovendo saúde mental”, destacou a coordenadora.
A primeira etapa do projeto aconteceu no Centro Educacional 29 de Maio, em novembro de 2025, reunindo 38 alunos do 8º e 9º ano do Ensino Fundamental II, com idades entre 14 e 16 anos. A ação contou com estudantes voluntários da Faculdade de Medicina de Campos e utilizou apresentações interativas e rodas de conversa para facilitar a aproximação com os adolescentes. Durante a atividade, os jovens puderam compartilhar dúvidas, percepções e experiências relacionadas ao uso das redes sociais e aos desafios emocionais vividos no cotidiano.

Os dados observados até o momento indicam uma presença intensa das redes sociais na rotina dos adolescentes, especialmente entre as meninas. A maioria relatou permanecer conectada por mais de três horas diárias, principalmente em plataformas de vídeos curtos e conteúdos visuais, além do uso frequente no período noturno. Também foram percebidos comportamentos relacionados à comparação com padrões de corpo, beleza e estilo de vida, fatores que podem influenciar diretamente autoestima, humor e qualidade do sono.
Entre os sinais emocionais identificados no grupo feminino aparecem sintomas como nervosismo, irritabilidade, dificuldade para dormir, sensação frequente de cansaço, desânimo e perda de interesse por atividades do dia a dia. Já no grupo masculino, embora os indícios tenham surgido de forma menos intensa, foram observadas dificuldades de concentração, alterações no sono e sentimentos de ansiedade em parte dos participantes. Amélia ressalta, no entanto, que o estudo não busca rotular estudantes, mas compreender tendências e ampliar o cuidado dentro das escolas
Além da investigação, o Bora Viver aposta em ações práticas para incentivar novas formas de convivência. Durante os encontros, os estudantes foram convidados a escrever atividades que gostam de fazer sem o uso da internet, como praticar esportes, passar tempo com amigos e familiares, ouvir música e aproveitar espaços ao ar livre. A proposta foi estimular a lembrança de hábitos simples que ajudam a fortalecer vínculos sociais e o equilíbrio emocional. A expectativa da equipe é ampliar a iniciativa para outras unidades escolares do município e envolver também professores no debate.
Amélia ressalta que o Mais Ciência “dá oportunidade de aprimoramento científico e de conhecimento da realidade da nossa população” e também amplia a participação de estudantes voluntários, o que, segundo ela, fortalece a vivência prática e a compreensão do tema junto aos jovens. No projeto, um dos destaques foi a presença do estudante de Medicina Gabriel Louro, que já havia estado com as crianças e adolescentes no Centro Educacional 29 de Maio, em 29 de maio, e compartilhou com os alunos sua história de vida, dificuldades e superação. A coordenadora acrescenta que a próxima etapa será realizada em Morro do Coco, com o objetivo de identificar o perfil dos adolescentes da zona rural e observar se há diferenças em relação à realidade urbana, considerando aspectos como maior tranquilidade, espaços mais amplos para brincar, possível menor acesso às redes sociais e condições que podem indicar uma melhor qualidade de vida.
Por Jorge Rocha / Fotos: Divulgação