No mesmo território onde a memória costuma circular em voz baixa entre vizinhos e antigas famílias, a história do distrito de Santa Maria ganhou forma em tela grande. Nesta quinta (18), a Escola Municipal Santa Bárbara, localizada neste distrito, recebeu a exibição de estreia de “Trilhas da memória”, primeiro longa-metragem produzido pelo projeto AdoleScER com o Cinema, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia (Seduct), com realização assinada pelos próprios estudantes da unidade.
O filme foi dirigido por Carolina de Cássia, assistente social responsável pelo AdoleScER com o Cinema, e teve edição de João Marvila, que também editou os dois últimos curtas do projeto, “Era uma vez um lugar chamado Murundu” e “O lugar mais bonito do mundo”. O documentário foi construído ao longo de seis meses de pesquisa, gravações e edição, em um processo que levou o grupo a ampliar a proposta inicial para a realização de um longa-metragem, formato inédito na trajetória do projeto.
A produção reconstrói a formação social e cultural da região a partir dos depoimentos de moradores pioneiros de localidades como Santa Isabel, Guaraná, Mata da Cruz e Santa Bárbara. Os relatos ajudam a compor um retrato vivo do passado local, marcado por forte atividade cafeeira e arrozeira no início do século 20.

Carolina de Cássia destacou que a experiência também teve impacto direto na formação dos alunos. “Ao ouvir os relatos dos mais velhos, eles foram descobrindo suas próprias origens e aprendendo a valorizar a história e a cultura do lugar onde vivem”, afirmou. Para ela, a estreia na comunidade também tem valor simbólico, porque reconhece a importância de camponesas e camponeses que ajudaram a sustentar o território e a alimentar a cidade.
Ao longo do filme, os estudantes também revisitam a presença de trabalhadores de origens europeia, afrodescendente e indígena, ressaltando como diferentes trajetórias ajudaram a moldar o território. A proposta do documentário foi dar centralidade às vozes de quem viveu e construiu essa história, em vez de recorrer apenas a registros oficiais.
A subsecretária de ensino, Célia Maria Ferreira, avaliou que a iniciativa fortalece a relação entre escola, família e comunidade. “A Secretaria Municipal de Educação entende que projetos como o AdoleScER com o Cinema são essenciais para fortalecer a relação entre escola, família e comunidade”, disse. Para ela, a experiência amplia o protagonismo juvenil, estimula o sentimento de pertencimento e contribui para uma formação mais conectada com o território.

A diretora Márcia Emília Guimarães ressaltou a adesão dos estudantes e o valor pedagógico da experiência. “Eles aderiram muito bem à iniciativa e foi muito importante conhecer a história da localidade, além de resgatar a cultura dos antepassados”, afirmou. Ela observou ainda que o filme ajuda a recuperar a lembrança de firmas, fábricas e empreendimentos que marcaram a história local.
Com “Trilhas da memória”, o AdoleScER com o Cinema inaugura uma nova etapa. A produção amplia o alcance do projeto ao levar para a tela, em longa-metragem, histórias contadas por quem viveu a transformação do território e por jovens que aprenderam, ao pesquisar o passado, a reconhecer o valor da própria comunidade.
Por Jorge Rocha / Fotos: Alicio Gomes