A Escola Municipal Maria Antonia Pessanha Trindade, em Dores de Macabu, recebeu, na sexta (3), o lançamento do terceiro “Guia Pedagógico de Educação Escolar Quilombola perspectivas antirracistas e práticas emancipatórias” e do documentário “Arquivo Vivo”. As duas produções foram desenvolvidas a partir das experiências do Curso de Aperfeiçoamento em Educação Escolar Quilombola Perspectivas Antirracistas e Práticas Emancipatórias junto à comunidade do Quilombo de Lagoa Feia. A programação reuniu educadores, estudantes, lideranças quilombolas, representantes de instituições de ensino superior e do poder público, com apresentação do guia, exibição do filme e uma roda de jongo.
O guia reúne práticas pedagógicas construídas coletivamente durante a formação, com sequências didáticas, relatos de experiências, reflexões teóricas e propostas voltadas à valorização da identidade quilombola. O material busca apoiar professores da educação básica na elaboração de atividades alinhadas às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola, aproximando o currículo da realidade vivida pelas comunidades e fortalecendo uma educação comprometida com a equidade racial e a valorização dos saberes tradicionais.
Uma das organizadoras do curso e do guia, Maria Clareth Reis, destacou que a publicação representa a sistematização de todo o percurso formativo realizado nos territórios quilombolas. Ela define que cada página do guia carrega experiências construídas por educadores, estudantes, lideranças e moradores mais antigos das comunidades. “Este guia reúne tudo o que produzimos ao longo do curso. As comunidades participaram ativamente de sua construção e compartilharam conhecimentos que, muitas vezes, eram desconhecidos pelos próprios professores. Registrar essas vivências significa preservar uma memória coletiva e transformá-la em instrumento pedagógico para as escolas”, afirmou.

Também autor da publicação, o assessor especial de Educação do Campo, Marcelo Cavalcanti Vianna, ressaltou que o guia se consolida como uma ferramenta pedagógica fundamentada nas Diretrizes Curriculares da Educação Escolar Quilombola. Para ele, esta publicação “é o reconhecimento de um lugar de produção, da vida de produção da resistência. Um lugar que foi historicamente apagado pelas políticas públicas, mas que ganha centralidade nesse livro, com as histórias, as memórias, a ancestralidade que constituiu a resistência desse povo”. Marcelo considera ainda que a Seduct tem um papel fundamental neste processo, ao “valorizar essa modalidade de ensino, mas também de estruturar cada vez mais essas escolas, no sentido de potencializar os territórios e garantir uma educação diferenciada, que trata os povos de diferentes grupos sociais como sujeitos de direito”
A assistente da Gerência de Diversidade e Inclusão da Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia (Seduct), Simone Pedro, destacou que a iniciativa demonstra a importância da construção coletiva das políticas de Educação Escolar Quilombola. “O engajamento da comunidade é essencial para que esse processo aconteça. Universidade, poder público, educadores e moradores precisam caminhar juntos para que o desenvolvimento educacional dos territórios seja efetivo”, afirmou.
A diretora da Escola Municipal Maria Antonia Pessanha Trindade, Sônia Maria Sardinha da Cruz, ressaltou a importância de a unidade sediar o evento. “É uma honra receber este público para o lançamento do guia e do documentário. Esse trabalho registra a cultura quilombola e garante que ela permaneça viva na memória dos estudantes, da comunidade e de todos que terão acesso a esse material”, afirmou. A iniciativa contou com o apoio da Seduct, que atua no fortalecimento da Educação Escolar Quilombola por meio da consolidação dessa modalidade de ensino, da valorização dos territórios tradicionais e da construção de currículos contextualizados, em consonância com as diretrizes nacionais.
Também lançado durante o evento, o documentário “Arquivo Vivo”, dirigido por Vita Evangelista e Maria Clareth Reis, apresenta um registro audiovisual das experiências vividas ao longo dos seis meses de formação no Quilombo de Lagoa Fea. O filme transforma em patrimônio educativo as narrativas, os saberes, as manifestações culturais e as memórias preservadas pela comunidade, evidenciando o território como espaço permanente de produção de conhecimento.

Para Maria Clareth, a obra traduz a intensidade do processo vivido pelos participantes. “O documentário mostra um pouco de tudo o que vivemos durante o curso. É emocionante perceber o quanto nossa presença na comunidade gerou novos frutos. O filme registra essa experiência e reforça a importância de preservar a memória cultural para as futuras gerações”, disse. Vita Evangelista ressaltou que a proposta rompe com a ideia tradicional de arquivo. “Pensamos o arquivo como algo vivo, em constante movimento. O filme passa a ser um álbum da comunidade, capaz de preservar memórias, fortalecer identidades e continuar produzindo significados para quem o assistir daqui em diante”, explicou.
A presidente da Associação dos Remanescentes dos Quilombos de Lagoa Fea e Sossego, Maria de Lurdes Cruz, comemorou o lançamento das produções. “É uma satisfação receber o livro e o documentário porque foi aqui que o curso aconteceu e trouxe muitos resultados. Essa memória cultural precisa estar presente nas escolas e ser reconhecida pelas novas gerações como parte da história e da identidade do nosso povo”, declarou.

O Curso de Aperfeiçoamento em Educação Escolar Quilombola Perspectivas Antirracistas e Práticas Emancipatórias integra uma política de formação continuada vinculada ao Programa Escola Quilombo, do Ministério da Educação, desenvolvida pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), campus Macaé, o Instituto Federal Fluminense (IFF), a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) e secretarias municipais de educação. A formação é destinada a professores, gestores escolares, lideranças comunitárias e demais profissionais envolvidos com a educação de estudantes quilombolas nas regiões dos Lagos, Norte Fluminense e Costa Verde.
Mais do que qualificar educadores, o curso busca fortalecer a implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola por meio de práticas antirracistas, valorização dos saberes ancestrais e aproximação entre universidade, escola e comunidade. Ao incentivar o diálogo entre conhecimento científico e experiências dos territórios, a formação contribui para consolidar políticas públicas de equidade racial, ampliar o reconhecimento das comunidades quilombolas como produtoras de conhecimento e transformar a escola em um espaço de pertencimento, cidadania e preservação da memória coletiva.
Por Jorge Rocha / Fotos: João Marvila