A comunidade escolar vinculada à Escola Municipal Guiomar Ramos Paes, no Assentamento Zumbi dos Palmares, recebeu na quinta (9) a primeira exibição do documentário “Guardiães da Memória”, produzido por alunos da unidade de ensino participantes do projeto AdoleScER no Cinema. A obra, dirigida por Carolina de Cássia, coordenadora da iniciativa, apresenta um olhar das crianças sobre a história, a cultura e as memórias das comunidades do território, com apoio da Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia (Seduct). A exibição aconteceu no Espaço Oliveira, no Parque Santa Ana.
O filme acompanha a trajetória de um grupo de estudantes que decide investigar as próprias origens a partir das lembranças compartilhadas por familiares mais velhos, como bisavós, avós e avôs. Durante o processo de pesquisa, as crianças descobrem a relação do Assentamento Zumbi dos Palmares com a luta pela terra na região e passam a conhecer histórias de resistência, organização comunitária e construção de direitos.

A produção também amplia o olhar para outras localidades próximas, como o quilombo de Cafuringa e a comunidade de Lagoa Limpa, reunindo documentos, fotografias e registros audiovisuais que ajudam a preservar relatos de trabalhadores ligados à luta pela terra. A partir dessas descobertas, os estudantes transformam as informações coletadas em uma narrativa que mistura realidade, memória e elementos da imaginação infantil.
No documentário, as crianças criam uma história de ficção científica inspirada nas trajetórias de Zumbi dos Palmares e Dandara dos Palmares, utilizando a linguagem cinematográfica para refletir sobre a permanência dos sonhos e das lutas de gerações anteriores. Para Carolina de Cássia, o desenvolvimento do filme foi marcado por um processo de transformação construído junto aos estudantes.
“A trajetória deste filme foi um encontro de descobertas. No início, as crianças sonharam uma ficção científica sobre o transplante do cérebro de um monstro. Mas, durante as pesquisas realizadas no Assentamento Zumbi dos Palmares, novas histórias apareceram, trazendo memórias de luta, perdas, resistência e conquistas. O roteiro foi se modificando para mostrar que a luta pela reforma agrária continua viva e que os sonhos daqueles que fizeram parte dessa história seguem presentes nas novas gerações”, explicou a diretora.

Carolina destacou ainda que a produção contou com imagens e documentos históricos de diferentes acervos, incluindo materiais cedidos pelo Centro de Ciências do Homem (CCH), pelo Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEAA), pela Unidade Experimental de Som e Imagem (UESI), da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), além de outras instituições. Segundo ela, o documentário ultrapassa o registro audiovisual ao contribuir para a preservação da memória camponesa e das raízes históricas do município.
O diretor da Escola Municipal Guiomar Ramos Paes, Sávio Monção, ressaltou que a iniciativa fortalece os princípios da Educação do Campo e aproxima o currículo escolar das experiências vividas pela comunidade. “O lançamento do filme traduz os princípios da agroecologia e da Educação do Campo, valorizando os saberes locais, a história e a oralidade da comunidade. A produção amplia a discussão sobre uma educação conectada ao território, reconhecendo os sujeitos do campo como protagonistas e detentores de conhecimentos”, afirmou.
Para Sávio, o resultado evidencia o crescimento dos alunos e o papel da escola na valorização da identidade e da cultura local. “Havia muita expectativa para esse momento, mas o principal sentimento foi de felicidade ao ver o protagonismo das crianças, que assumem o papel de contar suas próprias histórias e fortalecer a memória dos territórios onde vivem”, completou.
Por Jorge Rocha / Fotos: Alicio Gomes